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Elmar Luiz Floss

Diretor na empresa INSTITUTO INCIA

Estudou MBA em Producao Vegetal - Ecofisiologia e manejo de culuras de lavoura. na instituição de ensino MBA - Gestão em Produção Vegetal

Por um Sistema de Semeadura Direta de qualidade

23 de março de 2018 - 14:13

Por um Sistema de Semeadura Direta de qualidade

A adoção crescente do Sistema de Semeadura Direta na Palha (SSDp), ou Sistema Plantio Direto na Palha (SPDp), conservacionista por excelência, pelos produtores da região Centro-sul do Brasil, é a principal e mais positiva mudança no perfil das propriedades agrícolas observado nos últimos anos. Região em que grandes quantidades de solo fértil eram perdidas, anualmente, devido à erosão, como consequência da intensa mobilização destes solos para implantação das culturas de inverno e verão, e, a falta de cobertura verde/morta no solo. Estima-se que, atualmente, mais de 44 milhões de ha, no Brasil, são cultivados sob SSD.
Entretanto, nos últimos anos, aumentou a erosão nos solos do Sul do Brasil, mesmo em áreas sob SSD. Isso se deve ao fato de que em áreas expressivas, o SSD é parcial, pois falta palha e os solos estão compactados, devido a vários fatores: a)redução da área de cereais no sistema de produção (especialmente, milho no verão e trigo no inverno); b) vazio outonal, entre a colheita das culturas de verão, como soja e milho, cada vez mais precoces, e o cultivo das culturas de inverno (trigo, cevada, aveia branca, dentre outras); c) uso indiscriminado da grade, que desagrega o solo e acelera a decomposição da matéria orgânica; d) pastejo inadequado de forrageiras (baixa disponibilidade de pasto, pastejo contínuo em dias de chuva e uso até muito próximo da implantação das culturas em sucessão), no sistema de integração lavoura-pecuária; e) solos compactados, que reduz a infiltração de água no solo e aumenta o escorrimento superficial (maior erosão); f) não realização de operações de cultivo (semeadura, escarificação, pulverizações), em nível; g) redução da produção de palha pelos modernos cultivares, com ciclo cada vez mais precoce e menor estatura de plantas; h) monocultura de soja, com menor produção de palha e de decomposição mais rápida, devido a baixa relação C/N.

Importância da palhada
Nos anos 1970/1980, a maior preocupação de produtores, técnicos e gestores rurais, eram as perdas de solo por erosão, que causava o empobrecimento dos solos de lavouras e o assoreamento de mananciais hídricos, o desmatamento indiscriminado e a poluição das águas. A adoção do Sistema de Semeadura Direta (SSD), com qualidade, pelos produtores foi a maior e mais importante “revolução tecnológica” na agricultura, pois reduziu drasticamente a erosão do solo, melhorou a qualidade das águas, gerou economia de máquinas e equipamentos, de óleo diesel/lubrificantes, e, de mão de obra. Além da redução de custos, houve um aumento linear do rendimento das culturas, pois melhorou o ambiente solo. O rendimento da soja, por exemplo, que era de aproximadamente 20-30 sacas por ha, na década de 1980, aumentou para mais de 50-60 sacas na safra 2017, associando o SSD com melhor genética, nutrição, manejo sanitário e a agricultura de precisão. Mas, não ganhou apenas o produtor rural. O SSD também contribui com a redução do efeito estufa, pelo sequestro de carbono no solo (aumento da matéria orgânica do solo - MOS).

O “sequestro” de carbono
A liberação desenfreada de gás carbônico na atmosfera, pelo aquecimento das águas devido as fases de maior explosão solar e também pela ação do homem, é o responsável pelo efeito estufa (aumento da temperatura global). A única forma de retirar esse excesso de gás carbônico da atmosfera é através da fotossíntese, realizada pelas plantas. As culturas utilizam a água e nutrientes, absorvidos do solo e o gás carbônico (CO2), absorvido do ar para a síntese dos mais diversos compostos orgânicos que constituem a biomassa, como glicídios, óleos, proteínas, celulose, etc., tendo como fonte energia, o sol.
A maior contribuição da agricultura para a redução do aquecimento global é o aperfeiçoamento do SSD. Quanto mais tempo a lavoura estiver ocupada com culturas, estas estarão assimilando gás carbônico do ar, liberando oxigênio na atmosfera e formando biomassa. Ainda, quanto mais palha for produzida aumenta o teor de matéria orgânica no solo (MOS), que além de promover a melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, evita que o gás carbônico retorne imediatamente ao ar. E, quanto maior o teor de MOS, as substâncias húmicas (ácido húmico, ácido fúlvico e huminas/humidatos), de natureza coloidal, de muitas cargas negativas, aumentam a capacidade de troca de cátions (CTC) e a retenção de água no solo.
Essa palha é decomposta entre 120 a 150 dias, pelos microrganismos, dependendo da espécie. Para evitar que o carbono fixado na matéria orgânica seja liberado ao ar deve-se colher a cultura de verão e imediatamente implantar uma cultura produtora de grãos ou de cobertura verde/adubo verde do solo. Essas culturas irão assimilar o nitrogênio e o gás carbônico liberado pela decomposição da palhada da cultura anterior.
É o sistema agroecológico “colher e semear”, evitando o vazio outonal. Considerando as condições de clima da região (chuva e temperatura), a sustentabilidade do SSD requer a produção anual, entre culturas de inverno e verão, de aproximadamente 9 a 12 t/ha de palha seca. Nessas condições o solo estará coberto, aumentando a infiltração de água quando chove. A cor clara da palha aumenta a reflexão dos raios solares, diminui o aquecimento do solo, que beneficia o desenvolvimento inicial da soja e do milho, diminui as perdas de água do solo por evaporação. A decomposição dessa matéria orgânica pelos microrganismos promove a reciclagem de nutrientes, a redução da atividade tóxica do alumínio (complexação), aumenta a capacidade de troca de cátions (CTC) e a retenção de água no solo.
Numa produção anual de 10 t/ha de grãos de milho e 10 t/ha de palha, são fixadas outras 18 t de CO2. Somando os grãos mais a palha, uma lavoura de milho retira do ar o gás carbônico liberado na queima de 16 mil litros de gasolina.
Por isso, o Sistema Plantio Direto é verdadeiramente conservacionista!

Manejo conservacionista do solo
O manejo adequado dos solos agrícolas se traduz pela manutenção e a melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas dos mesmos, visando à maximização da produtivi¬dade das culturas econômicas, de forma permanente. A manutenção de restos culturais na superfície do solo, num adequado sis¬tema de rotação de culturas, é um importante fator condicionador do solo, refletindo de maneira eficaz no incremento da infiltração da água, redução da temperatura superficial do solo, aumento da estabilidade de agregados, da disponibilidade de nutrientes e água e, estí¬mulo às atividades microbiológicas. Consequentemente ocorre uma redução das perdas por erosão do solo e água, um au¬mento gradativo da produtividade das culturas e a redução dos custos produção.
A cobertura do solo com material orgânico, portanto, é essen¬cial para o sucesso da semeadura direta, tornando-se preocu¬pação prioritária dos agricultores pretendentes a implan¬tação deste sistema. Depois da fracassada implantação do SSD no início dos anos 70 devido, principalmente, a falta de palha na superfície dos solos (“cultivo de soja sobre resteva de soja”), o sucesso veio com a semeadura das culturas, especialmente de verão (soja e milho), sobre a palha das culturas de inverno, como o trigo, aveia, cevada, dentre outas culturas. Com a redução paulatina da área cultivada com trigo, a partir de 1977, a aveia e azevém passaram a ser as culturas de inverno/primavera mais importantes como produtoras de palha no inverno em toda a região Sul do Brasil, ocupando parte da grande área de solos agrícolas que ficam em pousio nesta época do ano.
A principal espécie cultivada como cobertura verde/morta do solo é a aveia preta (Avena strigosa Schreb). Apesar dos enormes benefícios desta prática, a necessidade de aumento da renda nas propriedades, seja pelo aumento dos rendimentos dos cultivos ou pela redução de custos de produção, fez com que os produtores aumentassem, ultimamente, o aproveitamento desta biomassa na produção animal através da integração lavoura-pecuária. Também são alternativas para cobertura verde/morta do solo, o centeio, o azevém e o nabo forrageiro.
Dentre os adubos verdes adaptados à região, destaca-se a ervilhaca comum (Vicia sativa L.), a ervilhaca peluda ou vilosa (Vicia villosa) e ervilha forrageira (Pisum sativum subesp. arwenses).
A principal alternativa de cultivo de inverno, visando a produção de grãos é o trigo. Outra alternativa para agregação de renda na propriedade é o incremento crescente da área cultivada com aveia branca (Avena sativa L.) e triticale (Triticum turgidum cereale Rimpau), visando a produção de grãos, destinados a alimentação humana ou animal. Esta prática mantém uma boa produção de palha e de forma suplementar a produção de grãos de alto valor nutritivo, tendo como principal destino a substituição do milho no arraçoamento animal na própria propriedade ou na região, especialmente nos meses de outubro a fevereiro. Estes grãos de cereais de inverno contribuiriam para reduzir o déficit crescente de grãos de milho observado no RS, principalmente na suplementação da alimentação de vacas leiteiras, equinos, ovinos, e, em menor proporção, na alimentação de suínos e aves.

 

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