Chances de Super El Niño crescem e acendem alerta para próxima safra com seca e chuva extrema
NOAA aponta até 95% de chance de um El Niño muito forte nos próximos meses, com impactos em todas as regiões do Brasil
IBGE diz que efeito do El Niño sobre alimentos ainda não pode ser medido
O El Niño em atuação no Oceano Pacífico deve ganhar ainda mais força nos próximos meses e pode se transformar em um evento histórico, com impactos importantes sobre o clima e a produção agropecuária brasileira durante a safra 2026/27. A avaliação é de Arthur Müller, meteorologista do Canal Rural.
El Niño tem 95% de chance de ser muito forte, alerta NOAA
Segundo o especialista, o mais recente relatório da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) reforça a perspectiva de intensificação do fenômeno. As projeções indicam probabilidade entre 90% e 95% de um El Niño muito forte nos próximos meses, especialmente entre setembro e dezembro.
O fenômeno deve permanecer influenciando o clima durante o ciclo 2026/27 e pode se estender até o outono de 2027.
Super El Niño pode superar evento de 2015 e 2016
Um dos pontos que chamam a atenção nas projeções é a possibilidade de o atual fenômeno alcançar intensidade semelhante ou até superior à observada no El Niño de 2015/16, considerado um dos mais fortes já registrados.
Naquele episódio, segundo Müller, a anomalia média do Pacífico chegou a aproximadamente 2,8°C. Desta vez, as projeções médias também se aproximam de 2,7°C a 2,8°C, enquanto alguns modelos indicam valores próximos de 3°C.
“A tendência é de termos um fenômeno histórico”, afirma o meteorologista.
Müller destaca ainda o forte aquecimento observado abaixo da superfície do Pacífico Equatorial. Segundo ele, há áreas em profundidade apresentando anomalias de temperatura próximas de 10°C.
O meteorologista ressalta que eventos extremos fazem parte dos ciclos naturais do planeta, mas podem ser potencializados pelo aquecimento dos oceanos e pelas alterações provocadas pela ação humana.
Sul pode enfrentar excesso de chuva
Para o agronegócio, os efeitos do El Niño devem variar significativamente entre as regiões brasileiras.
No Sul, a principal preocupação é o excesso de chuva. O Rio Grande do Sul deve enfrentar volumes elevados durante a primavera, período importante para a implantação das culturas de verão.
Em Palmeira das Missões (RS), por exemplo, as projeções apresentadas pelo meteorologista indicam acumulados que podem chegar à casa dos 600 milímetros, cenário que ele considera capaz de favorecer episódios de enchentes.
Apesar de as temperaturas médias não apresentarem necessariamente grandes desvios, os períodos de tempo firme podem ser acompanhados de forte aquecimento, com máximas próximas dos 30°C.
São Paulo pode ter chuva, mas calor preocupa
No Sudeste, São Paulo tende a ser mais beneficiado pelas chuvas associadas ao fenômeno. Minas Gerais e Espírito Santo, por outro lado, podem enfrentar precipitações mais irregulares.
Centro-Oeste pode ter chuva irregular e temperaturas acima de 40°C
No Centro-Oeste, Müller chama a atenção para um cenário que pode confundir o produtor. Apesar de alguns mapas indicarem chuvas acima da média, isso não significa necessariamente uma distribuição adequada das precipitações ao longo da safra.
A expectativa é de temperaturas acima da média e períodos prolongados de calor entre os episódios de chuva.
Em Sorriso (MT), uma das principais regiões produtoras de grãos do país, a precipitação deve ganhar maior regularidade apenas a partir da segunda quinzena de outubro.
Até lá, o calor pode representar um desafio adicional. Segundo Müller, as máximas podem chegar frequentemente aos 40°C e, em alguns momentos, superar essa marca.
Norte e Nordeste têm cenário mais crítico
A situação mais preocupante em relação à falta de chuva deve ocorrer no Norte e Nordeste. Nessas regiões, o El Niño tende a favorecer precipitações abaixo da média combinadas com temperaturas mais elevadas.
Em Barreiras, no oeste da Bahia, as projeções indicam poucos acumulados significativos justamente no período em que as chuvas deveriam começar a retornar. O calor também deve permanecer intenso.
No Norte, além dos impactos sobre a produção, a falta de chuva pode atingir a logística do agronegócio.
Müller alerta para possíveis reflexos no Arco Norte, importante corredor de exportação de grãos. Em Altamira (PA), por exemplo, as projeções apontam pouca chuva em novembro, período que coincide com o início do plantio em algumas áreas, e máximas próximas dos 40°C.
Com o fortalecimento do El Niño previsto para os próximos meses, o meteorologista reforça que produtores precisarão acompanhar não apenas os volumes totais de precipitação, mas principalmente a distribuição das chuvas e a ocorrência de ondas de calor ao longo da safra 2026/27.







